sexta-feira, 18 de julho de 2008

Tinha nome de pedra preciosa e a vida maltratou-a


Um dia de manhã cedo, ao entrar no quarto que lhe havia sido destinado ,encontrei-a toda amarrada à cama ,porque a agitação em que se encontrava era incontrolavel. Era uma menina, tinha 36 anos, a sua pele era mais escura que a minha e no delírio lutava como um animal enjaulado. As suas pernas estava cravejada de feridas redondas de bordos bem definidos com a medida dum cigarro aceso .
Mundo perverso, mundo abaixo de cão
Imediatamente lhe prestamos cuidados de conforto ,lhe tiramos a dor e o frenesim em que se encontrava e lhe tratámos as queimaduras das feridas.
Toda a equipa era solidaria mas estabelecemos que só profissionais no feminino, a tratariam enquanto ela não conseguisse falar, devido ao estado de choque em que se encontrava.
Os dias foram passando e de acordo com o que estabelecemos todos os dias antes de entrar no serviço dirigia-me ao bar da Instituição, comprava um pastel de nata com pires e colher. Ao entrar no serviço ela lá estava , como eu queria, sentada numa cadeira de rodas ,lavada e tratadaU; tinha um lençol dobrado à volta do torax e ligado à cadeira para que não se atirasse. Depois , o ritual cumprimento e dava-lhe o pastel de nata com uma colher de chá .As primeiras vezes cuspiu ,depois ,a menina que estava dentro dela começou a voltar aos poucos e um dia falou pela primeira vez, quando acabou de comer o pastel de nata e as palavras foram:-- “Isto é um consolo”. O tempo passou, ELA ficou bem e foi entregue a uma Instituição e eu segui a minha vida .Mais tarde, ao entrar num Hospital ouvi chamar por mim insistentemente.. Era um colega de trabalho para me dizer: ELA caiu na rua ,está cá de novo e muito mal. Esta é uma das muitas histórias tristes duma carreira profissional vitoriosa . ELA, já não existe, descansa finalmente. De pedra preciosa passou a pedra, com sete palmos de terra em cima .

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